terça-feira, setembro 30

Lá pelas tantas, percebe-se um quê de bocó num ser outrora amado. As tentativas de conquista já lhe parecem tão baratas. Ela tem certa compaixão e prefere deixar de lado a palavra “vulgar”. Seria demais cruel com aquele que um dia julgou ser seu grande amor. Por consideração às lembranças, resolveu fazer de conta que não pensou nisso. Jogou com ironia e divertiu-se ao vê-lo concordar. Concordaria com tudo que ela quisesse.

Mesmo usando os truques artísticos um dia ensinados por ele, sentia-se mal em alguns momentos e tinha vontade de levantar e sair porta afora daquele restaurante finamente paulistano. Sair assim, sem nem uma expressão facial diferenciada. Sairia com a mesma cara que entrou, como se tivesse almoçado sozinha, esquecido de pagar a conta e nenhum garçom chegasse esbaforido para cobrá-la enquanto andava pela calçada.

Talvez nunca tenha sido aquele que habita suas lembranças. Mesmo que ele tenha concordado em ser um de seus dois maridos, ela volta para casa com a certeza de que não teria paciência com alguém que fizesse concorrência aos seus dramas espetaculares. Gosta de ser a única dramática da relação. Continua a mesma de oito anos atrás.

quinta-feira, setembro 18

É impressionante a dor que se pode sentir sem ao menos um foco definido do doer. Uma dor espalhada, que não dói no corpo, mas toma o corpo inteiro. É impressionante como é possível contar a vida em sacos de lixo. “Minha vida cabe em 50 sacos de lixo”, poderiam dizer, se houvesse coragem para admitir que não se tratava apenas de uma mudança sem caixas. Impressionante ainda como pessoas somem num estalo de mágica, deixando sequer micro estrelinhas ao alcance da visão como nos desenhos animados. Impressionante como dor causa espanto, que causa pensamentos, que ocasionam frases, que formam textos, nem sempre com nexo, nem sempre com nomes.

terça-feira, setembro 16

Salve-me dos capitais dessa capital nervosa. Faça-me criar belas frases sobre as feridas abertas dos palhaços deste circo de horrores. Toque-me um tango que bailaremos quando tivermos coragem de fugir de la babylon. Beije-me somente quando tirar todo ar cinzento dos seus pulmões. Toque-me quando não mais carregar dores morais na ponta de seus dedos. E não diga nada, porque palavra alguma poderá sobressair a essa sinfonia de algazarras. Vamos quietos para a praia, esquecer tudo para lembrar do nosso mundo.

segunda-feira, setembro 15

Parei pra pensar. Minha vida é menos inspiradora hoje? A julgar pelos meus escritos, assim parece. Uma vez era a vida, cenas, histórias, fantasias, amores platonicamente correspondidos. Hoje são ativos, valores agregados, estratégias, gestão, precatórios, CVM e empresas abertas. Não! Não se engane. Antes fossem empresas abertas em mentalidade. Os textos tratam do capital. Nesse mundo tão fechado. Num mundo de figurantes que perambulam pelas ruas da cidade que eu escolhi ao não querer, na contramão dos fatos, que esmagam e estão sempre sobre minhas vontades traidoras. Passam as pessoas sob a marquise que segura os pés da cadeira que agüenta o peso do meu corpo com o computador no colo. E as teclas barulham o dia todo. Mas nada daquilo toma corpo no papel virtualmente branquinho. Uma página, duas, cinco, 25 mil caracteres de ações em bolsa. E as idéias pulsam... pulsam... pulsam. As idéias cansam de pulsar e se entregam finalmente. Parei de pensar.