sábado, maio 23

A barba rala por fazer, a jaqueta de sarja azul-marinho meio acinturada sobre um antigo moletom cinza claro mescladinho, com decalque de um chapéu mexicano e a gola esgarçada, completavam a combinação calça jeans e tênis all-star. Naquela tarde de segunda-feira, o dia mais calmo da sua semana, comeu bife acebolado, arroz, feijão, salada e batata-frita. Fazia tempo que ele não comia feijão, e eu, que já não mais tremia por dentro, passei a digerir melhor essa aventura longe do meu sertão. Ganhei a cidade naquele dia e, no caminho de volta pra casa, comprei um tênis com velcro. Sem cadarços, sem amarras, sem demora.

terça-feira, maio 19

E hoje estou feliz porque sei que os que lá chegaram, também, um dia, estiveram rendidos.

*

Foi em meio à bagunça que me senti mais inspirada e a coragem aflorou. Mandei um e-mail e telefonei. Meu Deus! Falei com ele ao telefone. Ele sabe que eu existo. Sim, ele sabe. E mais que isso. Ele disse meu nome e respondeu quando ouviu minha voz. Me chamou de querida! Trocamos frases num diálogo certeiro, preciso. Como consegui parecer tão segura? Minhas armas de defesa andam cada vez mais afiadas. Hoje consigo chegar mais perto de uma atitude aparentemente natural sem ser blasé, sem parecer uma entojada, ou sem demonstrar algo próximo do desinteresse completo. Estou aperfeiçoando. Ou será que ele percebeu alguma coisa, talvez uma pequena hesitada na fala, uma falha na voz. Ou pior, será que me achou desencanada demais?

Tremer por dentro e manter o corpo firme por fora não me parece tão difícil. Consigo nas situações que mais me assustam, mas depois não sei dizer se passei reto por algo sem perceber. Compenetração além da conta em mim mesma, na linha reta e na pisada precisa. A imagem e a voz fixas, fortes. Por dentro, estremeço por completo.

domingo, maio 17

Da cadeira do cinema onde tentava se acomodar, viu o casal em beijos sonoros, pernas sobre pernas, risadas e euforia. Queria ficar observando, ver os rostos, mas sabia que seria inconveniente. Ela tem dessas. Acha que é falta de educação sua o que, na verdade, é inconveniência alheia. Por educação, tentava mirar de canto de olho, sem mover a cabeça na direção deles. Quando não se continha, dava olhadelas disfarçadas, como se mirasse algo na mesma direção, mas além. Achou o rapaz bonitinho. Até demais para a moçoila que, esteticamente analisando, carregava um nariz redondo demais bem no meio de bochechas ainda infantis.

Deviam ter uns 17 anos e, por isso, a ida estratégica ao cinema. “São Paulo e suas dificuldades. Não dá pra achar um lugarzinho tranquilo, uma ruazinha sem movimento... Precisam pagar o cinema”. Enquanto ela se desviava mais uma vez em pensamentos sobre a falta de praticidade de se viver numa cidade dessas, o moço, confirmando-se muito bem apanhado, levantou para buscar pipoca. Sua mocinha não conseguia deixar de acompanhá-lo admirada, e pouco segurou o sorriso fácil que deixa com a cara de bobo, porém alegre, todo ser apaixonado. Distante três fileiras de cadeira e um corredor, ela quase sentia a mesma sensação de orgulho daquela menina realizada, tal era a força nos olhos ao observar a cena.

A essa altura, já esquecia de disfarçar. Quando se percebeu descarada, virou o rosto rapidamente para frente, como se se compenetrasse numa cena da tela, ainda negra. Tinha a impressão de que a mocinha acabara de perceber sua insistente observação. Parou de olhar. O filme começava a rodar enquanto abria um pacotinho de bala e perdia-se numa única questão:

- Qual dos dois vai chorar quando terminar?

terça-feira, maio 12

O medo é literário. Com sorte, publicado, já não é mais seu.

domingo, maio 10

Há distâncias que não somos capazes de percorrer. Distâncias não geográficas. Neste instante, o céu se compadece e me acompanha na deságua. É o único que acredita em mim.

Time keeps movin' on,
Friends they turn away.
I keep movin' on
But I never found out why
I keep pushing so hard the dream,
I keep tryin' to make it right
Through another lonely day.

(Kozmic Blues - Janis Joplin)

sábado, maio 9

Perambulando pelo Largo do Arouche na passagem da noite para a madrugada, abriu os braços e jogou-os para o céu quando parou no meio da calçada:

- Un carajo! Un gran carajo suíno!

Depois do desabafo em berro, num gesto contrário, foi encolhendo-se até encostar a testa no joelho e enterrar o nariz no calor do próprio peito. Chorava com o descontrole e a mágoa dos traídos. Tampouco era esse o motivo. Sequer tinha quem o traísse.

Em menos de um minuto, ergueu os olhos de canto, ainda abraçado às próprias pernas e sem levantar a cabeça, em soluços, dos joelhos encharcados. Uma senhora observava da janela do primeiro andar. Parcialmente escondida pela cortina, os curtos cabelos brancos, os olhos e o vulto claro de sua camisola revelavam a presença voyer. “A desgraça alheia é novela pra essa velha”, pensou, enquanto levantava-se e seguia pela calçada, no mesmo sentido que vinha antes do surto, sem limpar a poça que ficou nas olheiras.

Gosta de sentir a pele molhada em lágrima, de perceber se ela tem força suficiente para escorrer ou se fica reprimida, fraca, sem coragem de percorrer os poros até jogar-se do queixo ao colo. Naquele dia, apesar do drama, as lágrimas foram covardes. Ele só queria chamar atenção. Como são tolos esses homens carentes, sem perceber que todo animal selvagem é, por definição, solitário. Imagine então, o animal crítico.

Há cinco quadras dali, dormiu satisfeito no quartinho alugado, embalado pelo ritmo do neon vermelho piscando através da cortina empoeirada.

quinta-feira, maio 7

voltar a ser. encontrar aquela calça jeans de cinco anos atrás enterrada no guarda-roupa. lembrar de ser. tamanha vontade de felicidade. querer ver. querer...

quarta-feira, maio 6

Sobre estar bêbado, é preciso reconhecer o perfeito estado anestésico. O exato nível da substância inflamável é como um instantâneo de Polaroid. Charmoso e ágil momento, que passa num piscar de olhos mais demorado. Chega o sono, e nada mais faz sentido, senão a paz do cheiroso travesseiro aguardando a cabeça rodeada de idéias. Idéias que viram sonhos, e alimentam um novo dia.

Para dar boa noite ou bom dia, um brinde ao amor e ao constante renascimento deste espírito vagabundo, que tanto muda de corpo, de objeto, de nome.

segunda-feira, maio 4

O lixo voou pelo céu de São Paulo. Mas São Paulo não tem céu. Quem encontrar o céu em São Paulo, pode perder os dedos dos pés ao ficar parado numa esquina qualquer e quebrar o pescoço procurando um vão por entre as janelas enfileiradas. Mas hoje, o lixo rodopiou pelo ar, até chegar ao céu. Da praça, deu para ver. Do alto, deu para ter medo. Do chão, deu para correr.

Lixo dançando ao som do assovio desesperado, que despertou até os ouvidos mais acostumados ao ronco de todos os motores conduzidos pelas pobres almas penadas que julgam viver. Esqueceram o que é vida. Mal choveu, e o que restou foi o frio. Mas almas penadas, há muito, já não sabem o que é frio. Não existe sensibilidade num lugar onde não tem céu.

Depois o sol voltou, mas São Paulo não é cidade feita para o sol queimar, porque cozinha os pés, as moringas e as idéias. Porque frigi o chão e é preciso correr para escapar. Correndo, não dá para ver o céu. Mesmo que ao olhar para cima, passemos a acreditar que aquilo que vemos é ele, e que mudou pra sempre de cor.

domingo, maio 3

Festinha a sós no domingo à tarde e eu passo horas encontrando o que fazer para adiar o que tenho a fazer. Beijinho com cereja eu nunca tinha comido, nem mini canudo de um queijo irreconhecível. As sobras ficam para a noite, que já chegou lá fora.

Aqui ainda é cedo, e as paredes continuam com esse ar hospitalar. Já é tarde para pintá-las de branco. Melhor seriam cores, mas eu gostaria de trocar os móveis também. Fica para outro dia. Mês que vem, quando eu voltar de algum lugar.

Por enquanto, continuo aqui entre papéis, organizando sobras de amores desperdiçados. São só laços de fita cremados e eu coloquei tudo no mesmo saco, sem pensar se era orgânico ou reciclável.

Meus dias têm sido tão legais. Por supuesto, as pessoas são mais.