Da cadeira do cinema onde tentava se acomodar, viu o casal em beijos sonoros, pernas sobre pernas, risadas e euforia. Queria ficar observando, ver os rostos, mas sabia que seria inconveniente. Ela tem dessas. Acha que é falta de educação sua o que, na verdade, é inconveniência alheia. Por educação, tentava mirar de canto de olho, sem mover a cabeça na direção deles. Quando não se continha, dava olhadelas disfarçadas, como se mirasse algo na mesma direção, mas além. Achou o rapaz bonitinho. Até demais para a moçoila que, esteticamente analisando, carregava um nariz redondo demais bem no meio de bochechas ainda infantis.
Deviam ter uns 17 anos e, por isso, a ida estratégica ao cinema. “São Paulo e suas dificuldades. Não dá pra achar um lugarzinho tranquilo, uma ruazinha sem movimento... Precisam pagar o cinema”. Enquanto ela se desviava mais uma vez em pensamentos sobre a falta de praticidade de se viver numa cidade dessas, o moço, confirmando-se muito bem apanhado, levantou para buscar pipoca. Sua mocinha não conseguia deixar de acompanhá-lo admirada, e pouco segurou o sorriso fácil que deixa com a cara de bobo, porém alegre, todo ser apaixonado. Distante três fileiras de cadeira e um corredor, ela quase sentia a mesma sensação de orgulho daquela menina realizada, tal era a força nos olhos ao observar a cena.
A essa altura, já esquecia de disfarçar. Quando se percebeu descarada, virou o rosto rapidamente para frente, como se se compenetrasse numa cena da tela, ainda negra. Tinha a impressão de que a mocinha acabara de perceber sua insistente observação. Parou de olhar. O filme começava a rodar enquanto abria um pacotinho de bala e perdia-se numa única questão:
- Qual dos dois vai chorar quando terminar?
Um comentário:
Que lindo!
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