O lixo voou pelo céu de São Paulo. Mas São Paulo não tem céu. Quem encontrar o céu em São Paulo, pode perder os dedos dos pés ao ficar parado numa esquina qualquer e quebrar o pescoço procurando um vão por entre as janelas enfileiradas. Mas hoje, o lixo rodopiou pelo ar, até chegar ao céu. Da praça, deu para ver. Do alto, deu para ter medo. Do chão, deu para correr.
Lixo dançando ao som do assovio desesperado, que despertou até os ouvidos mais acostumados ao ronco de todos os motores conduzidos pelas pobres almas penadas que julgam viver. Esqueceram o que é vida. Mal choveu, e o que restou foi o frio. Mas almas penadas, há muito, já não sabem o que é frio. Não existe sensibilidade num lugar onde não tem céu.
Depois o sol voltou, mas São Paulo não é cidade feita para o sol queimar, porque cozinha os pés, as moringas e as idéias. Porque frigi o chão e é preciso correr para escapar. Correndo, não dá para ver o céu. Mesmo que ao olhar para cima, passemos a acreditar que aquilo que vemos é ele, e que mudou pra sempre de cor.
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