sábado, maio 9

Perambulando pelo Largo do Arouche na passagem da noite para a madrugada, abriu os braços e jogou-os para o céu quando parou no meio da calçada:

- Un carajo! Un gran carajo suíno!

Depois do desabafo em berro, num gesto contrário, foi encolhendo-se até encostar a testa no joelho e enterrar o nariz no calor do próprio peito. Chorava com o descontrole e a mágoa dos traídos. Tampouco era esse o motivo. Sequer tinha quem o traísse.

Em menos de um minuto, ergueu os olhos de canto, ainda abraçado às próprias pernas e sem levantar a cabeça, em soluços, dos joelhos encharcados. Uma senhora observava da janela do primeiro andar. Parcialmente escondida pela cortina, os curtos cabelos brancos, os olhos e o vulto claro de sua camisola revelavam a presença voyer. “A desgraça alheia é novela pra essa velha”, pensou, enquanto levantava-se e seguia pela calçada, no mesmo sentido que vinha antes do surto, sem limpar a poça que ficou nas olheiras.

Gosta de sentir a pele molhada em lágrima, de perceber se ela tem força suficiente para escorrer ou se fica reprimida, fraca, sem coragem de percorrer os poros até jogar-se do queixo ao colo. Naquele dia, apesar do drama, as lágrimas foram covardes. Ele só queria chamar atenção. Como são tolos esses homens carentes, sem perceber que todo animal selvagem é, por definição, solitário. Imagine então, o animal crítico.

Há cinco quadras dali, dormiu satisfeito no quartinho alugado, embalado pelo ritmo do neon vermelho piscando através da cortina empoeirada.

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