segunda-feira, junho 29
quarta-feira, junho 24
terça-feira, junho 9
É louca a cumplicidade por um cigarro. Passadas apressadas por esfomeados, corridelas disfarçadas diante de um mendigo mais friorento, olhares ignorantes às dores das crianças ranhentas nas calçadas, o passo mais lento para ver se o corpo caído é morto ou desmaiado, o movimento ágil nas maçanetas para fechar vidros gelados dos carros mais polidos, a defesa sempre pronta aos variados e criativos pedintes desta cidadona que aceita a todos, mas acolhe poucos.
A rede de seres que transitam de um lado para o outro do planeta, com olhos mortos para toda e qualquer bizarrice a que a espécie humana deu frutos com suas convicções, encontra-se, assim, em qualquer esquina, perto da sorveteria, passando pela frente da locadora, no semáforo fechado ao pedestre, nas casas de qualquer diversão, entre bebidas e entre cafés nos intervalinhos forçados no escritório. Eles encontram-se e, magicamente, param.
O toc-toc do sapato lustrado do advogado que usa calça jeans e um terno casual corre apressado morro abaixo, e só cessa para tirar do maço um cigarrinho para a amiga de sorte pior, botas de plataforma com o cano largo, as pernas magricelas, os ossos aparecendo nos lugares das maçãs na bochecha, extremamente reveladas pelo cabelo descolorido e estragado, puxado num coque desgrenhado.
Claro, um cigarro.
Um cigarro uniu as classes ali na calçada da Augusta, em plena terça início da tarde. Um cigarro une caranguejos que, como que numa dança dos cânceres astrológicos do pulmões mais bailantes, revelam-se ao mundo ao sair da casca e, "sim, claro, um cigarro". O mundo pára, e os cigarros são partilhados. O mendigo pede dinheiro na mesa do bar. Não tem, amigo. Mas um cigarrinho, sim, claro. Pega aí, fica pra você. Porque pegar de volta a baba de semelhante tão mal cheiroso? Não dá.
segunda-feira, junho 8
Sobre as flores e as listras, há que se perceber os traços que moldam momentos pessoais. Se houver linhas retas em tons degradé, seja na matiz que desejar - vermelho, azul, verde ou preto, é preciso perceber se satisfaz todo o tempo em que houverem formas tão geométricas a se capinar diariamente. Em flores, as curvas e as complexidades podem causar-lhe aquele leve impacto saudosista até mesmo em meio a caracteres tão desprovidos de serifas. Milhares de caracteres sem graça todos os dias.
Entre as flores da melancolia e as listras da praticidade, atendo a alma, que tem exigido flores em cada espacinho escondido dos meus dias nos últimos meses. Quero flores, ainda que de uma neutralidade cinzenta, para combinar com qualquer parede mais mexicana.