É louca a cumplicidade por um cigarro. Passadas apressadas por esfomeados, corridelas disfarçadas diante de um mendigo mais friorento, olhares ignorantes às dores das crianças ranhentas nas calçadas, o passo mais lento para ver se o corpo caído é morto ou desmaiado, o movimento ágil nas maçanetas para fechar vidros gelados dos carros mais polidos, a defesa sempre pronta aos variados e criativos pedintes desta cidadona que aceita a todos, mas acolhe poucos.
A rede de seres que transitam de um lado para o outro do planeta, com olhos mortos para toda e qualquer bizarrice a que a espécie humana deu frutos com suas convicções, encontra-se, assim, em qualquer esquina, perto da sorveteria, passando pela frente da locadora, no semáforo fechado ao pedestre, nas casas de qualquer diversão, entre bebidas e entre cafés nos intervalinhos forçados no escritório. Eles encontram-se e, magicamente, param.
O toc-toc do sapato lustrado do advogado que usa calça jeans e um terno casual corre apressado morro abaixo, e só cessa para tirar do maço um cigarrinho para a amiga de sorte pior, botas de plataforma com o cano largo, as pernas magricelas, os ossos aparecendo nos lugares das maçãs na bochecha, extremamente reveladas pelo cabelo descolorido e estragado, puxado num coque desgrenhado.
Claro, um cigarro.
Um cigarro uniu as classes ali na calçada da Augusta, em plena terça início da tarde. Um cigarro une caranguejos que, como que numa dança dos cânceres astrológicos do pulmões mais bailantes, revelam-se ao mundo ao sair da casca e, "sim, claro, um cigarro". O mundo pára, e os cigarros são partilhados. O mendigo pede dinheiro na mesa do bar. Não tem, amigo. Mas um cigarrinho, sim, claro. Pega aí, fica pra você. Porque pegar de volta a baba de semelhante tão mal cheiroso? Não dá.
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