quarta-feira, junho 3

Sempre com aquela expressão de Exu na cara, ele a deixava perdida e insegura. As sobrancelhas arqueadas, todas as marcas de expressão franzidas e a boca de desgosto para mostrar que não mais via o brilho. Ela sequer sabia brilhar como era seu costume. Apagadinha, só sabia maldizer e mal esperar. Ansiosa, todo dia brigava com as paredes e sentia frio. Rodopiou, girou e sentiu o sangue quente mais uma vez. Mas ainda sente-se um balão solto pelo céu grande, vagando numa direção experimental, sem saber qual o sentido de tudo que faz. À noite, dorme quentinha, mas acorda com sonhos ruins que não consegue lembrar. Sente medo. Encontra coragem para ir à cozinha tomar água, calçada com os chinelos que ganhou da sua avó na última semana. Passa no banheiro, e quando volta para o quarto liga a TV. Toma cuidado para não deixar em canal com filme de terror porque acredita que pode influenciar nos seus sonhos. Gosta de medo apenas quando tem companhia. Deixa o som bem baixinho, só para iluminar o quarto depois que apaga a luz. Ela não tem abajur, nem criados-mudos. Nem falantes. Fala sozinha mesmo e sabe que deve fazer o que sabe que deve fazer. Quando consegue, isso basta.