quarta-feira, setembro 29

Sem poder esparramar toda a estranha sensação de esgotamento misturada aos espasmos de indignação, pediu para dar uma morridinha. Não sabia direito quanto tempo. Um dia ou dois. Provavelmente fosse ineficiente, mas com a certeza de que esse pouquinho já ajudaria, e mesmo com medo de não ser possível mais levantar, como julgou Romeu ao ver ela lá deitada, branca e esquálida, quis dar a morridinha mesmo assim. Continuou sentada, olhos abertos/ouvidos de penico, porque não conseguiu. Vivo ali ficou seu corpo cansado. Vivo ali ficou seu cérebro inchado. Vivo ali ficou um coração que bate de lado.

quarta-feira, setembro 22

Criam confusões de palavras desencaixadas. Eles discordam. Discordam. Só encaixam no silêncio enquanto passam as mãos por entre fios de cabelos. Ora cachinhos, ora retos. O amor é silêncio. Não existe no falar, não é palavra, não tem definição, não é contrato de voz, de secreções íntimas ou de papel. Ela evita a palavra amor diante dele porque sabe que a interpretação não será aquela que quer. Ele, tão sensível. Chora e acha bonito qualquer defeito do mundo, mas não crê no amor. Consciente e orgulhoso da tão exaltada postura passional, confunde-o com relacionamento. Não acha que amor existe sem a pessoa amada ao redor. Não acha que amor é inesgotável e cumulativo. Não acha que amor só faz bem a quem o detém. Não entende que, ao objeto amado, no máximo, é um bem ao ego, uma auto-estima trabalhada em massagens calmantes que iludem o buraco negro entre os dois lados do peito.

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Meu bem, entenda. O amor só diz respeito ao timo pessoal, e nada mais. Meu casinho, não se defenda só porque não entende o que te digo sobre o amor. Meu benzinho, não se feche em casulo, querendo transparecer uma modernidade que nem combina com você. Somos antiquados. E só deveríamos ficar quietos. Porque é no silêncio que o amor acontece sem interferências. E não... não confunda amor com relacionamento para que não precisemos, obrigatoriamente, experimentar o término deste encontro de corpos que nem combinam tanto assim. Mas além, de essências tão gostosas como as nossas. Para que possamos continuar convencidos em nosso canto branco, onde a janela dá para um mar imaginário, do qual sinto até o cheiro nas tardes de maresia.

quinta-feira, setembro 16

Música de Bolso - Wendy McNeill - Such a Common Bird



Eu sou um lobo solitário
Uma beleza e uma besta

quarta-feira, setembro 8

Ele me desafia. Eu gosto e não gosto disso. Ele acha que me saca mais do que eu mesma, e eu não sei se está errado. Ele não é do tamanho que eu queria, mas mostra toda hora que é bem maior que eu. Não gosto de me sentir ameaçada. Revido, e devia ficar calada. Ele é dois em um de duas formas diferentes, mas falta uma coisa. E eu ando meio estranha ultimamente. Gosto e não gosto do efeito. Gosto e não gosto dele. Acho que sobra certeza ali e isso me irrita, mas só às vezes. Mas há inspiração, senão ninguém escreveria nada. Nem sei por que esse recado, mas acho que faz parte da brincadeira de irritar e agradar ao mesmo tempo. Que seja só minha essa certeza: tenho certeza que também desafio. Mas por vezes, penso que sou só ridícula porque ele realmente me assusta. Assim como um ratinho a um elefante.
Um dia acordou e se cansou de ser a encrenca. Escovou os dentes, seguiu para o ponto da Ipiranga e chegou pontualmente ao trabalho. Primeiro, foi chamada de Carolina mais vezes do que o necessário. Depois, recebeu uma bronca real e outra virtual. As duas ao mesmo tempo. Ah, esse mundo que não para de crescer suas camadas dimensionais! Devia ter mantido suas farpas longe das modernidades. Mas se sentiu pressionada, cedeu, respondeu um, respondeu outro. Não sabe ficar calada. Não gosta do gosto de sapo. E vomitou. Vômito pessoalmente e virtualmente. Então decidiu: "vou mudar de signo". Escolheu ser de libra. Acha que a nova data a comemorar será um dia de outubro. Para não se atropelar, resolver testar alguns mapas astrais antes de decidir o dia e local exatos.

Exatos para ser alguém que fala a mesma língua que o resto do mundo. Admite que outros também usam linguagens confusas, mas jura pra si mesma que gostaria de falar o mesmo idioma. Depois de testar uns 110 mapas astrais, resolveu ficar com o seu mesmo. Melhor ser do que tentar. Vai que não consegue, e a emenda fica pior que a bagunça de nascença. Continuou uma filhote órfã. Leoazinha mal interpretada.

As garras sempre atrapalham suas tentativas de carinho. Alguém acha estranho que seus olhos sejam ditos rasos? Alguém conhece o que existe no fundo do mar antes de mergulhar?

Então, desistiu de mudar de signo. Continuou mergulhada nos seus próprios olhos - os mares mais seguros que conhece, o melhor lugar para parar de se sentir uma encrenca.

segunda-feira, setembro 6

Ai. Que dói dores sem origem. Ai, ai, ai. Ai. Ai.
Pior é nem saber se há dor quando o ai sai assim, suspirado.
Ai que vontade de comer um suspiro. Quentinho, com a pontinha marrom de queimado e o recheio molhado.
Aaaaaaaaaaaai que saudade.
Saudade de mãe.
de um cheiro que nem me lembro mais.
Saudade de não ter nada pra pensar.
Ou de pensar e, com o pensar, já me dar por satisfeita.
I just can’t get enough
I just dance with myself.
Algum par aceita uma mulher proclamadora de ais? Nem que sejam ais de boa, de bem, de bom?