Um dia acordou e se cansou de ser a encrenca. Escovou os dentes, seguiu para o ponto da Ipiranga e chegou pontualmente ao trabalho. Primeiro, foi chamada de Carolina mais vezes do que o necessário. Depois, recebeu uma bronca real e outra virtual. As duas ao mesmo tempo. Ah, esse mundo que não para de crescer suas camadas dimensionais! Devia ter mantido suas farpas longe das modernidades. Mas se sentiu pressionada, cedeu, respondeu um, respondeu outro. Não sabe ficar calada. Não gosta do gosto de sapo. E vomitou. Vômito pessoalmente e virtualmente. Então decidiu: "vou mudar de signo". Escolheu ser de libra. Acha que a nova data a comemorar será um dia de outubro. Para não se atropelar, resolver testar alguns mapas astrais antes de decidir o dia e local exatos.
Exatos para ser alguém que fala a mesma língua que o resto do mundo. Admite que outros também usam linguagens confusas, mas jura pra si mesma que gostaria de falar o mesmo idioma. Depois de testar uns 110 mapas astrais, resolveu ficar com o seu mesmo. Melhor ser do que tentar. Vai que não consegue, e a emenda fica pior que a bagunça de nascença. Continuou uma filhote órfã. Leoazinha mal interpretada.
As garras sempre atrapalham suas tentativas de carinho. Alguém acha estranho que seus olhos sejam ditos rasos? Alguém conhece o que existe no fundo do mar antes de mergulhar?
Então, desistiu de mudar de signo. Continuou mergulhada nos seus próprios olhos - os mares mais seguros que conhece, o melhor lugar para parar de se sentir uma encrenca.
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